Brasil está entre os 30 países com maior capacidade de geração solar

Publicado em: 28 de junho de 2018

Por Jefferson Klein

Apesar de o Japão ser conhecido como o “país do sol nascente”, se for levado em conta o crescimento da energia solar, o Brasil poderia se apropriar desse título. Mesmo tendo recém começado a se desenvolver por aqui, essa fonte renovável já coloca o Brasil no seleto grupo de 30 nações com mais de 1 GW de potência operacional instalada: o País já ultrapassa a marca de 1,5 GW de capacidade instalada.

O número de residências abastecidas com a fonte dá uma dimensão desse avanço. Cerca de 60 mil casas (compostas por quatro a cinco pessoas) recebiam energia solar há um ano, montante que hoje ultrapassa 633 mil habitações, segundo dados divulgados na Brasil Solar Power – Conferência & Exposição pelo Grupo UBM|CanalEnergia e a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). A representação da matriz energética brasileira, atualmente em 1%, deve ultrapassar os 10% até 2030.

Ainda no primeiro semestre deste ano, o mercado nacional já havia alcançado a marca de 250 MW de potência instalada em sistemas de micro e minigeração distribuída solar em residências, comércios, indústrias, edifícios públicos e na zona rural. Esse patamar representa apenas cerca de 6% da demanda média de energia do Rio Grande do Sul atualmente, mas o número cresce vertiginosamente e parece que não há um limite para seu potencial.

Com a geração distribuída (produção de eletricidade no local de consumo), através de mecanismos como painéis fotovoltaicos, por exemplo, o consumidor pode jogar energia na rede elétrica e receber créditos da sua concessionária para abater na sua conta de luz. Apesar de haver outras formas de produzir essa eletricidade (a eólica é uma alternativa), o que caiu no gosto popular foi a geração solar.

Segundo mapeamento da Absolar, a fonte lidera com folga o segmento de micro e minigeração distribuída, com mais de 99,3% das instalações do País. Em números de sistemas em funcionamento, os consumidores residenciais estão no topo da lista, representando 77,4% do total. Em seguida, aparecem as empresas dos setores de comércio e serviços (16%), consumidores rurais (3,2%), indústrias (2,4%), poder público (0,8%) e outros tipos, como serviços públicos (0,2%) e iluminação pública (0,03%).

Em potência, os consumidores dos setores de comércio e serviços lideram o uso da energia solar fotovoltaica, com 42,8% da potência instalada no Brasil, seguidos de perto por consumidores residenciais (39,1%), indústrias (8,1%), clientes rurais (5,6%), poder público (3,7%) e outros tipos, como iluminação pública (0,03%), e serviços públicos (0,6%). O presidente da Absolar, Rodrigo Sauaia, argumenta que, se forem levadas em consideração as previsões iniciais feitas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ainda há espaço para melhorar a performance. O dirigente lembra que o órgão regulador projetou em 2015 que, até 2024, seria atingido o patamar de cerca de 1,24 milhão de consumidores no Brasil gerando sua própria energia através do sol.

No entanto, em 2017, a Aneel reviu essa previsão diminuindo-a em cerca de 30%. “Essa redução significativa mostra que o mercado não está respondendo como poderia”, frisa Sauaia. Para o dirigente, esse cenário não advém da falta de interesse dos usuários, mas de fatores como uma tributação desfavorável quanto a equipamentos utilizados por esse tipo de geração.

Estado situa-se entre os maiores geradores

Mesmo não sendo o lugar de maior radiação solar no País, o Rio Grande do Sul encontra-se entre os estados que mais aproveitam a geração distribuída com essa fonte. Atualmente, segundo dados da Absolar, Minas Gerais lidera o ranking nacional, com 22,9% da potência instalada no País, em seguida vêm Rio Grande do Sul (13,9%), São Paulo (13,5%), Ceará (5,9%) e Santa Catarina (5,9%).

A secretaria estadual de Minas e Energia, Susana Kakuta, atesta que a geração distribuída é uma realidade para os gaúchos. A dirigente salienta que, conforme a Aneel, em meados de maio, eram quase 3,2 mil unidades produtoras de energia distribuída instaladas no Estado. Susana enfatiza que as fontes utilizadas por esse tipo de produção de eletricidade são de baixo impacto ambiental, proporcionam a minimização de perdas (já que estão próximas ao centro de cargas, e a energia gerada não precisa percorrer diversos quilômetros por linhas de transmissão) e a diversificação da matriz energética.

Os painéis fotovoltaicos estão se proliferando por casas, postos de combustíveis, padarias, entre outros edifícios, enfatiza a secretária. Susana argumenta que, no caso específico do Rio Grande do Sul, a região tem familiaridade com as fontes renováveis. O Estado conta com um mapa quanto ao potencial de energia eólica, um atlas de biomassa (matéria orgânica para produção de energia) e, neste segundo semestre, será lançado o atlas solarimétrico, o que deve incentivar ainda mais investimentos nessa área. Susana detalha que se trata de um grande levantamento que sinalizará as regiões nas quais poderão ser obtidas melhores performances de geração fotovoltaica.

Segmento supera crise econômica

Apesar de a crise econômica ainda gerar reflexos no País, a geração distribuída nunca deixou de ser um mercado promissor no Brasil. A gerente da Fronius (empresa austríaca do segmento de energia solar) Anaibel Novas, argumenta que o interesse dos consumidores por essa alternativa está diretamente ligado aos aumentos das contas de luz acima da inflação. “Se vê na geração distribuída uma forma de proteção desses inúmeros reajustes”, frisa.

Além disso, a gerente da Fronius ressalta que há uma consciência cada vez maior quanto a consumir energia de fontes renováveis. Outro fator que deve contribuir para o crescimento da geração solar é a entrada dos carros elétricos no mercado de forma mais intensa. Anaibel projeta que se tornará uma ação corriqueira as pessoas instalarem tomadas em suas garagens para abastecerem veículos. Boa parte da eletricidade que será necessária para alimentar essa nova frota provavelmente virá da geração distribuída.

Apesar do entusiasmo com a energia solar, alguns gargalos ainda precisam ser solucionados. “O grande problema hoje dentro da geração distribuída é a falta de opções de financiamento”, aponta o diretor da MGF energia solar Gerson Pinho. Para Pinho, levando em conta os problemas enfrentados pela matriz energética do País, o governo deveria incentivar as ações nessa área. Para driblar essa dificuldade quanto à concessão de empréstimos para a instalação de equipamentos, as empresas que vendem módulos fotovoltaicos estão adotando modalidades de consórcios. O diretor da MGF concorda que os veículos elétricos ajudarão na proliferação dos sistemas fotovoltaicos. Nesse sentido, Pinho afirma ter recebido informações da prefeitura de Gravataí de que, em dois anos, a GM irá produzir carros híbridos (elétricos e a etanol) no Rio Grande do Sul.

Custos de equipamentos vêm caindo conforme aumenta a escala de fabricação

Como normalmente acontece com todas as tecnologias, quanto mais o mercado vai ganhando escala e ficando maduro, mais os preços baixam. O mesmo fenômeno pode ser verificado quanto à cadeia da energia solar fotovoltaica no Brasil. Esse fato foi comprovado por levantamento feito pelo Instituto Ideal.

A coordenadora do estudo Mercado Brasil de GD do Instituto Ideal, Taynara Reisner Mighelão, informa que o trabalho se iniciou em 2013 e indicou um grande crescimento do mercado de geração distribuída. Um dos pontos ressaltados na pesquisa foi a queda dos preços dos equipamentos nesse período (cerca de 16%), em função, entre outros fatores, da entrada de novas empresas fornecedoras no mercado.

Outro fato apontado é a redução do tempo de instalação dos painéis fotovoltaicos. Antigamente, levava-se cerca de seis meses e, em 2017, esse prazo caiu para em torno de dois meses. “E a tendência é diminuir, pois as companhias do setor têm mais aprendizagem”, frisa Taynara. A coordenadora do estudo Mercado Brasil de GD do Instituto Ideal informa que 31% das empresas que atuam no segmento já têm de três a cinco anos de experiência acumulada, demonstrando o amadurecimento do setor.

O diretor da MGF energia solar Gerson Pinho também ressalta que os equipamentos fotovoltaicos estão ficando mais baratos e que está ocorrendo o retorno do investimento feito pelo cliente de maneira mais rápida. Pinho diz que a média de custo no Brasil para instalar um sistema fotovoltaico para residências (classe média, de dois a três dormitórios, com família de cinco pessoas) está em torno de R$ 50 mil. O retorno desse investimento, conforme o diretor da MGF, não passa de cinco anos atualmente.

Dentro desse exemplo apresentado, seria atendido 95% do consumo de energia da casa através de painéis fotovoltaicos. Pinho lembra que não é possível zerar a conta de energia, pois é preciso pagar para a concessionária o chamado custo de disponibilidade (se a instalação for monofásica, bifásica ou trifásica esse custo varia). Nos clientes industriais, em média, é possível reduzir a conta de luz em cerca de 50%.

O gerente de vendas da Jinko Solar, Marcelo Sousa, salienta que a empresa chinesa, maior fabricante de módulos fotovoltaicos do mundo, tem uma expectativa muito positiva em torno do potencial do mercado brasileiro. “Há uma projeção de que, nos próximos anos, o País represente de 2% a 3% do volume mundial desse mercado”, comenta. O grupo fechou o ano passado com a produção de 9,7 mil MW em módulos fotovoltaicos, e a previsão para 2018 é atingir algo entre 12,5 mil MW e 13,5 mil MW. A companhia possui oito fábricas no mundo e está iniciando a montagem da nona unidade, na Flórida, nos Estados Unidos.

A Jinko registra ainda operações em mais de 35 países, com escritórios e subsidiárias, entre os quais o Brasil. Sousa reforça que é difícil competir quanto a volumes de produção de módulos com as empresas chinesas, no momento. “Dos 12 maiores fabricantes do planeta, 10 são chineses”, enfatiza.

Consumidores reclamam de dificuldades

Apesar das vantagens da fonte solar, alguns consumidores afirmam que não é algo tão fácil aproveitar os benefícios dessa geração de energia. Além da aquisição de equipamentos e da necessidade de espaço para instalá-los, há reclamações quanto a obstáculos por parte de distribuidoras de eletricidade.

O sócio-diretor da LED IN Fabio Silveira Cunha afirma que, quando o grupo CPFL assumiu o controle da AES Sul, transformando-a em RGE Sul, foram alteradas as regras para as companhias que instalam os equipamentos que produzem energia solar nas cidades atendidas pela distribuidora.

Entre os problemas criados, Cunha cita o descumprimento de prazos, sendo que consumidores ficaram mais de 50 dias esperando a troca de medidores bidirecionais exclusivos para usinas solares. Em nota, a RGE Sul comenta que o crescimento do nicho de micro e minigeração vem extrapolando a expectativa do próprio mercado brasileiro, exigindo da empresa um plano operacional exclusivo para implementação de novos clientes e um processo cadastral rigoroso que segue os padrões exigidos pelo órgão regulador.

Outra queixa do sócio-diretor da LED IN (empresa integradora que faz a instalação dos painéis fotovoltaicos e a intermediação entre clientes e concessionárias de energia) é a cobrança de ICMS sobre a geração distribuída por parte da concessionária, o que, segundo Cunha, contraria o Decreto nº 52.964, de 30 de março de 2016, do governo do Estado. Ainda segundo nota da RGE Sul, no fornecimento de energia elétrica realizado pela companhia aos clientes, continua incidindo ICMS, pois o decreto não isenta essa cobrança.

Na área da CEEE-D, um consumidor, que prefere não ter o seu nome divulgado, diz que contratou uma empresa para fazer a instalação de painéis fotovoltaicos em sua residência, porém, enquanto a distribuidora não trocasse ou vistoriasse o medidor, não seria possível utilizar os equipamentos.

A substituição, até o fechamento dessa matéria, já demorava mais de um mês para acontecer. A assessoria de imprensa da CEEE-D explica que o projeto elétrico apresentado por esse cliente ainda necessitava apresentar documentos e procedimentos prévios para ser regularizado.

Fonte: Jornal do Comércio